Eduardo Lourenço: “Portugal é uma espécie de milagre intermitente”, «Expresso» 2172 (2014)

Posted on 2015/03/05

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Henrique MONTEIRO e Joana PEREIRA BASTOS (entrevista) Eduardo LOURENÇO, “Portugal é uma espécie de milagre intermitente”, Expresso. Revista, 2172, 13. 06. 2014, 42-46

Para o maior ensaísta português, o país descobridor que já esteve no centro do mundo ainda não aceita a ideia de estar agora confinado a este “cantinho”. A crise aprofundou a depressão nacional, mas nada está perdido: “Navegamos há 800 anos, não vamos naufragar à primeira onda”.

Depois de mais de meio século a viver em França, Eduardo Lourenço regressou a Portugal. Aos 91 anos, o filósofo e ensaísta fala da crise profunda em que vive a Europa, o “continente cético e masoquista por excelência” que questiona tudo, sem encontrar respostas. E da angústia de, no fundo, estarmos “sós no mundo”.

á escreveu várias obras sobre a identidade portuguesa. O que nos distingue?
O caso português é uma espécie de milagre intermitente, porque se olharmos para o mapa da Europa — e sobretudo da Península Ibérica — é um mistério a razão por que este retângulo, este pequeno país, é independente há muito tempo do seu vizinho. O grande país peninsular é a Espanha, mas não foi sempre assim. Nós começámos por estar numa posição igualitária, na altura em que a Península Ibérica era a ponta da cruzada do refluxo dos árabes de Poitiers, até 1492, quando Granada é tomada. O problema começa a pôr-se quando Aragão e Castela se unem, sobretudo depois dessa conquista de Granada. Nessa altura nasce outro Portugal. A partir do momento em que chegámos à Índia, o polo de Portugal deslocou-se; o país começou a ser formado de fora para dentro e de muito longe. Se não tivesse sido assim, provavelmente tínhamos sucumbido ao nosso vizinho, que seria o mais natural. Fomos os primeiros a sair da Europa, a seguir foi Espanha, com Colombo, com quase um século de atraso. Ficámos sempre com esta coisa de que aquilo que nos identifica na História Ocidental foi termos chegado à Índia e termos descoberto parte do novo mundo. Essa foi a nossa identificação durante séculos… Mas esse país terminou em abril de 1974: 500 anos de Portugal como país colonizador acabaram nessa altura. Para Espanha, essa identificação terminou com a perda de Cuba; e para nós com o 25 de Abril. E agora o nosso problema é que, pela primeira vez desde a tomada de Ceuta, voltámos ao nosso cantinho.

O professor disse uma vez que os portugueses sofriam de uma hiperidentidade… Em que sentido?
É normal que seja assim. Provavelmente o primeiro autor que se deu conta de que essa preocupação com a nossa pequenez podia ser lida de uma maneira positiva foi Camões, que falava na pequena casa portuguesa. “Os Lusíadas” estão construídos sobre esta ideia de como é que um povo tão pequenino foi um Ulisses. É verdade que naquela época a Europa era, ela própria, pensada como o centro do mundo. E o centro da Europa era a península e a cabeça da península era este reinozinho chamado Portugal. É meio onírico meio delirante, mas correspondia a uma coisa fáctica; à época chegar à Índia era quase como ter chegado à Lua. Era quase um conto de fadas, uma coisa antes inimaginável.

Disse uma vez que o país tem momentos de exaltação nacional, de quase “orgia identitária”. Tem a ver com esses feitos?
A maioria dos povos é assim. O narcisismo não é uma doença, é uma maneira de ser. Tem a ver com o facto de o ser humano estar no centro de tudo, a título individual e a título simbólico. Cada homem é em si toda a condição humana, como dizia Montaigne. É pura e simplesmente a tradução, laicizada, da ideia de que os homens são filhos de Deus. A essência do Homem é não ter essência, a não ser aquela que nos é dada na relação com a transcendência. Andamos aqui à espera de descobrir outros mundos; outros mundos haverá, mas até agora não está lá ninguém. E já conhecemos muito, muito longe, já estamos quase nos confins deste universo. Um dos maiores enigmas da humanidade, talvez indecifrável para sempre, é que só existe esta Terra. Isso é de uma vertigem absoluta e não há solução para esta angústia de estarmos sós no mundo.

Voltando à identidade nacional, há esses momentos de exaltação, mas há simultaneamente um negativismo permanente, uma tendência para dizermos mal de nós próprios. De onde surge esse discurso?
Culturalmente, a geração de (18)70 foi a primeira que fez esse discurso sobre nós próprios. A famosa conferência dada por Antero de Quental no CASINO em relação à Europa, já com esse complexo cultural muito grande de que eles é que pensam; quando eles próprios, daquela geração, eram pensantes e não estavam a uma grande distância de um Flaubert.

Essa espécie de depressão coletiva também existe noutros países?
Só nós, europeus, é que entramos em depressão. Nunca vi os árabes terem esse discurso. Isso tem a ver com a fé. Nós somos um povo que é cético. E levamos a crítica ao extremo. Por outro lado, somos o continente masoquista por excelência. Mesmo com todos os problemas que tem, é um continente altamente privilegiado. As nossas doenças são de gente rica. Se pensássemos a sério durante dois minutos no estado em que vive a maioria dos povos, por exemplo em África, devíamos ter vergonha das nossas choradeiras intermináveis. O facto de nunca estarmos satisfeitos faz parte da natureza humana no geral, e em particular da nossa mentalidade ocidental, europeia.

No nosso caso, continuamos a pensar em Portugal como um grande país a nível mundial e não como um pequeno país europeu? Não interiorizámos que esse ciclo terminou?
Um dos grandes acontecimentos do século passado foi a descolonização. Que, por sua vez, foi acelerada com a rivalidade ocidental chamada Guerra Fria. Paradoxalmente, a descolonização tem dois atores: a própria América, a primeira colónia que se emancipa da Europa; e a União Soviética, que curiosamente é a grande referência de praticamente todos os movimentos de descolonização. Mas, apesar da descolonização, no caso português continuámos a estar (44 -45)lá, porque 500 anos não se apagam de um dia para o outro. Nem colonizador nem colonizado ficam iguais. O nosso caso é paradoxal: o povo de um pequeno país que está na Índia durante pelo menos 200 anos como se fosse o sucessor de Alexandre. É quase lendário. Isso terminou, mas não está terminado nas nossas cabeças. Com o 25 de Abril percebemos que só tínhamos uma saída, que era entrar o mais depressa possível na construção desta nova Europa, pós-2ª Guerra Mundial e, sobretudo, pós-queda do Muro de Berlim. Porque grande parte do que estamos todos a viver agora é consequência dessa queda.

Tivemos esse projeto de participar na construção da Europa, mas estamos neste momento a viver um período de quase humilhação nacional por essa mesma Europa, como já lhe chamou… Como se sai daqui?
Isso está inserido num fenómeno de crise, não direi planetária, mas pelo menos ocidental. A crise de que somos uma das vítimas não tem o seu polo na Europa, mas no centro do novo sistema, ou seja, na América. É todo o sistema capitalista ocidental, o chamado neo-liberalismo, que está em dificuldades. O sistema no qual estamos inseridos subalterniza a Europa, que já estava meio paralisada no seu projeto de autoconstrução como federação ou nação, mas apesar disso ainda funcionava. De repente, apanhou com esta crise económico-financeira… A Europa está ao serviço de uma política que não é dela, mas dos EUA. Faz 100 anos que a Europa começou a entrar numa fase, que nunca mais terminou até hoje, de declínio lento, mas real, do seu papel como centro do mundo, que foi durante séculos.

Dentro da Europa são os países do Sul que estão subalternizados em relação aos países do Norte…
Sim. Nós não ligamos grande importância, mas os maiores acontecimentos da história dos povos dizem respeito às crenças e aos valores que num dado momento triunfam. O que acontece é que temos pelo menos três versões da Europa desde o século XVI, devido ao acontecimento mais importante da história europeia, que foi a Reforma. A Reforma criou duas Europas, porque mudámos de religião. Pior do que isso, é a mesma religião em duas versões. Nunca houve nenhuma guerra entre Norte e Sul na Europa, mas há uma divisão de ordem cultural e económico-financeira. As nações do Norte são no geral mais bem estruturadas e os povos têm um melhor nível de vida do que os do Sul.

Em alguns países do Centro e Norte da Europa há a ideia de que os povos do Sul não trabalham, são preguiçosos…
São clichés que as nações criam umas sobre as outras. A coisa mais interessante que se escreveu sobre isso é a ideia de Pessoa de que todas as nações são mistérios e cada uma é um mistério para si própria. A Reforma trouxe a supremacia do indivíduo e a relação do indivíduo só com Deus, com todas as consequências que daí advieram. Houve realmente duas Europas a partir desse momento. E há ainda uma terceira, que é a Europa ortodoxa propriamente dita, que não se alterou até 1917. E que voltou à mesma, apesar de tudo o que aconteceu na Rússia. Nesse capítulo, o marxismo não conseguiu extirpar a maneira de ser profunda do povo russo.

Como vê o ressurgimento do Islão nas últimas décadas?
Nunca imaginei que aquela revolução de padres na Pérsia tivesse algum sucesso. Mas tem. Nem foi preciso mandar as tropas, foi a primeira revolução com cassetes. Porque há a coerência interna dada por uma religião que é vivida e pela qual eles se matam. É uma cultura organicamente crente. E a Europa não tem resposta para isso. A crise da Europa não é uma crise superficial, é uma crise profunda. É que a civilização e a cultura à qual nós pertencemos é crítica desde a sua origem. Este é o continente onde foi inventada uma forma de pensar o mundo e de nos pensarmos a nós próprios que é laica na sua essência e que se chama filosofia: discutir o nosso conhecimento em relação a tudo, a começar pela composição do universo. É uma civilização em que tudo é debate. Até Deus é discutível. Nas outras civilizações, Deus é a resposta. Para nós, Deus é a questão. Essa é a grande diferença.

Que futuro vê para o país? Que país acha que vai sair desta crise?
Nenhuma solução é só portuguesa, nem sequer é só europeia. Estamos num mundo em que tudo está dependente, umas coisas das outras. Quando é que nós imaginávamos que para o mundo, tal como ele é, a China se tornaria um país incontornável? O futuro diálogo é o diálogo entre a parte mais antiga do planeta, que é o Oriente, e a parte mais nova, a América, com a Europa no meio. O elo histórico desse diálogo e dessa possibilidade de contacto é a Europa. Temos a sensação que começou um novo período na história da humanidade. Portugal terá o destino que tiver a Europa. O que caracteriza a história da Humanidade é a sua imprevisibilidade. Mas navegamos há 800 anos e não vamos naufragar à primeira onda, não creio. Nem nós nem a Espanha, embora a Espanha enfrente problemas reais a curto prazo, como a questão da Catalunha. Não é um problema menor e reflete a atual incapacidade da Europa de levar avante o projeto que começou. Esse projeto está paralisado. Esteve durante quase 70 anos entalada entre os EUA e a União Soviética, depois acabou a Guerra Fria e quando foi derrubado o Muro de Berlim enfrentou a ameaça russa. Entretanto, já se tinha retirado do mundo colonizado.

Aliás, as grandes ameaças da Europa vieram sempre do Leste.
Sim. Mas quem viveu isso na carne, mesmo, foi a Rússia. Uma das coisas que eu acho mais lamentáveis na política europeia moderna é que não haja nenhuma estratégia no que diz respeito ao nosso relacionamento com a Rússia, que é extremamente importante, como se vê agora com a crise da Crimeia, que é a primeira consequência pós-Muro de Berlim. Há uma crise entre a parte ocidental da Europa e a parte leste, representada pela Ucrânia. É a primeira vez que de novo o antigo espaço da União Soviética, agora russo, inquieta o espaço europeu. São ainda reflexos do que pensávamos que tinha terminado com o fim da Guerra Fria. É de bradar aos céus a ideia de que a Turquia possa entrar na Europa, embora eu já tenha sido mais contra do que hoje, e a Rússia, pátria de Tolstoi e Dostoievki, não.